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Mais Ricos que Nossos Pais? A Ilusão da Pobreza Atual

dezembro 31, 2025 | by Pensador DFG

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Se você tem entre 25 e 35 anos — assim como eu, nascido no início da década de 90 —, provavelmente já se pegou em uma conversa lamentando o seguinte cenário:

“Meu pai, com a minha idade, já tinha casa própria, carro quitado, sustentava três filhos e a esposa não trabalhava fora. Eu, com pós-graduação e ganhando relativamente bem, mal consigo pagar o aluguel de um studio de 30m² e a fatura do cartão de crédito.”

Esse sentimento não é apenas seu. É um lamento geracional que ecoa dos Estados Unidos à Europa, e bate com força na classe média brasileira. A narrativa comum culpa a inflação, o governo, o “fim do padrão ouro” em 1971 ou uma conspiração do sistema financeiro. Dizem que fomos roubados.

Recentemente, me deparei com uma análise que desconstrói essa sensação de pobreza com dados brutos das Contas Nacionais. A conclusão é desconfortável, mas necessária: nós não somos mais pobres que nossos pais. Na verdade, somos mais ricos.

Então, por que a conta não fecha? Por que a sensação de escassez é tão real? A resposta exige que olhemos para o espelho, para nossos hábitos de consumo e para a estrutura da sociedade moderna.

Vamos lá…


1. O Mito da Renda: Os dados contradizem o choro

Primeiro, vamos tirar a emoção da sala e colocar os números na mesa. Existe uma crença popular de que os salários estagnaram enquanto o custo de vida explodiu.

Ao analisarmos os dados de renda ajustados pela inflação (utilizando dólares constantes de 2021 e Paridade de Poder de Compra – PPC), a realidade é diferente do meme da internet.

Em 1991, a renda média por pessoa empregada no Brasil era de aproximadamente US$ 32.000 anuais (valores ajustados). Essa era a realidade dos seus pais no auge da força de trabalho jovem. Hoje, em 2024, essa renda média saltou para US$ 42.229.

“Ah, mas aumentou pouco!”

Sim, o aumento foi de cerca de 15% a 17% em termos reais. Não é um crescimento chinês, mas é um crescimento. Você ganha mais do que seu pai ganhava na sua idade, em termos de poder de compra bruto.

Nos Estados Unidos, o salto foi de US$ 94k para US$ 153k. A média mundial quase dobrou, saindo de US$ 26k para US$ 49k.

O Fenômeno do “Vizinho Global”

Aqui reside o primeiro ponto cego da nossa geração. Na década de 80 e 90, o Brasil, mesmo com seus problemas, tinha uma renda média per capita superior à média global. Seus pais eram, comparativamente, os “vizinhos ricos” do mundo em desenvolvimento.

Hoje, a renda média do brasileiro (US$ 42k) foi alcançada e ultrapassada pela média mundial (US$ 49k). O mundo enriqueceu mais rápido que o Brasil.

Isso significa que, quando você vai consumir produtos globalizados (tecnologia, commodities, viagens), você está competindo com um consumidor global que ficou muito mais rico. Seu pai competia com um mundo mais pobre. Você compete com chineses, indianos e americanos que viram sua renda multiplicar.

Você não empobreceu. O mundo é que ficou mais caro porque há mais gente com dinheiro disputando os mesmos bens.


2. A Armadilha da “Cesta de Consumo”: Onde seu dinheiro realmente vai

Se a renda aumentou (ainda que modestamente), por que não sobra dinheiro no final do mês? A resposta está na mudança cultural da demanda.

Vamos fazer um exercício de honestidade intelectual. O que compunha a “cesta de sobrevivência” de uma família de classe média em 1990?

  • Alimentação (básica, feita em casa).
  • Aluguel ou prestação da casa.
  • Contas de consumo (água, luz).
  • Transporte (um carro popular ou ônibus).
  • Vestuário (comprado sazonalmente).
  • Telefone (se tivesse, era um luxo).

Agora, olhe para a sua fatura de cartão de crédito hoje. A sua “necessidade básica” inclui itens que nem existiam ou eram luxos inalcançáveis para seus pais:

  1. Tecnologia e Assinaturas: Smartphone de última geração (parcelado), plano de dados 5G, banda larga de fibra ótica, Netflix, Spotify, Amazon Prime, Disney+, nuvem do Google/iCloud.
  2. Terceirização da Vida: iFood e Uber. Antigamente, ter alguém para cozinhar para você ou um motorista particular era coisa de milionário. Hoje, tratamos isso como “bem normal”. Você pede comida numa terça-feira à noite porque está cansado. Seus pais faziam um omelete.
  3. Estética e Bem-estar: Academia, suplementos, nutricionista, skincare, barbearia gourmet.
  4. Educação Continuada: Cursos online, mentorias, livros.

A Inflação do Estilo de Vida

A análise econômica mostra que a nossa Curva de Utilidade mudou. Nossas necessidades aumentaram muito mais do que os 17% que nossa renda cresceu.

Nós integramos bens de luxo ao nosso cotidiano e os reclassificamos como “necessidades básicas”. Se você ganha R$ 5.000 e gasta R$ 800 com Uber e iFood no mês, você está consumindo serviços de luxo (motorista e chef), mas sente que está apenas “sobrevivendo” à rotina corrida.

Essa busca hedonista por conforto imediato drena a capacidade de poupança que, na geração anterior, era direcionada para a aquisição de patrimônio físico (imóveis).


3. O Mercado Imobiliário: A Ilusão da Localização

Este é o ponto mais sensível.

“Meu pai comprou uma casa no bairro X por um valor que hoje não compra nem um carro!”

Aqui entra um conceito: Imóveis não são commodities. Eles são bens únicos, irreplicáveis.

Você não pode comparar o preço de um terreno na Mooca ou no Tatuapé (bairros de São Paulo) em 1990 com o preço em 2024.

  • Em 1990: Eram bairros, muitas vezes, operários, com menos serviços, menos segurança e menos atratividade.
  • Em 2024: São centros gastronômicos, com metrô na porta e alta densidade demográfica.

O bairro valorizou porque a cidade cresceu e se desenvolveu ao redor dele. Seus pais compraram quando aquilo era “mato” ou periferia. Você quer comprar agora que é “prime”.

A geração atual sofre de uma resistência geográfica. Nossos pais e avós, quando casavam, aceitavam ir para lugares mais afastados (o “novo mato”) para construir a vida. Nós queremos morar perto do trabalho, perto do metrô, perto dos bares.

Essa conveniência tem um preço altíssimo: o prêmio de localização. Com os mesmos US$ 100 mil ajustados que seu pai tinha, você provavelmente consegue comprar uma casa excelente no interior ou em uma cidade em desenvolvimento. Mas você não quer morar lá. Você quer morar no centro expandido da metrópole.

O imóvel não ficou impossível; a localização que você deseja é que se tornou um bem de luxo escasso.


4. A Atomização da Sociedade: O Custo da Solidão

Outro fator crucial é a estrutura familiar.

A Geração X e os Boomers casavam cedo. Isso significa economia de escala.

  • Um aluguel dividido por dois.
  • Uma conta de luz dividida por dois.
  • Uma compra de mercado otimizada.

Nossa geração (Millennials e Z) posterga o casamento e, muitas vezes, opta por morar sozinha. A “vida de solteiro” é economicamente ineficiente. Você arca com 100% dos custos fixos, sem ninguém para dividir o fardo. Além disso, a vida social do solteiro moderno é cara (bares, encontros, viagens com amigos).

A atomização das famílias diluiu a renda. Dois salários de R$ 5.000 somados (R$ 10.000) constroem patrimônio muito mais rápido do que um salário de R$ 7.000 de alguém que mora sozinho. A matemática é implacável.


5. O Papel da Produtividade e da Carreira

Então, estamos condenados? Não. Mas o jogo mudou.

Antigamente, um diploma e tempo de casa garantiam a ascensão. Hoje, a dinâmica do trabalho exige aprendizado contínuo e adaptação rápida.

O mercado não paga pelo que você sabe, ele paga pelo problema complexo que você resolve.

A reclamação de que “ganhamos mal” muitas vezes vem acompanhada de uma estagnação de habilidades. Se a renda média global subiu porque a produtividade tecnológica explodiu, quem não domina as ferramentas dessa nova economia (IA, análise de dados, automação) vai ficar para trás, vendo seu poder de compra ser corroído não pela inflação, mas pela irrelevância.

A riqueza hoje não está apenas na terra (como para nossos avós) ou na indústria (como para nossos pais), mas na capacidade de processar informação e gerar eficiência.


PAUSA PARA REFLEXÃO

Antes de concluirmos sobre como virar esse jogo, preciso ser honesto com você. Entender a macroeconomia tira o peso da “culpa”, mas não resolve o seu boleto. Para navegar nesse cenário onde o consumo é alto e a competição é global, você precisa blindar sua mente e organizar seu bolso com sabedoria clássica, não com “hacks” de internet.

Existe uma leitura que considero fundamental para quem quer sair da “corrida dos ratos” mental. Não é um livro técnico de economia, mas uma obra que alinha suas expectativas com a realidade, ensinando a diferença entre ser rico (ter dinheiro) e ser próspero (ter liberdade).

Se você quer parar de sofrer com a comparação e começar a construir riqueza real, recomendo fortemente a leitura de “A Psicologia Financeira”, de Morgan Housel. Ele explica exatamente por que nossos comportamentos (e não apenas os números) ditam nosso sucesso financeiro.


6. A Mudança Cultural e Ética: O Fator “Olho Gordo”

Voltando à nossa análise. Há um componente espiritual e ético nessa insatisfação constante.

“Todo o trabalho do homem é para a sua boca, e contudo o seu apetite nunca se satisfaz” (Eclesiastes 6:7).

Vivemos na era do Instagram e do TikTok. Nossos pais comparavam a vida deles com o vizinho da rua ou o primo que passou no concurso do Banco do Brasil. Nós comparamos nossa vida, em tempo real, com a do herdeiro em Dubai, do nômade digital em Bali e do empreendedor de palco em Alphaville.

Essa hipercomparação gera uma distorção da realidade. Sentimos que somos pobres porque nossa referência de “sucesso” foi artificialmente inflada por algoritmos desenhados para gerar insatisfação (e, consequentemente, venda).

O IDH brasileiro subiu. A desigualdade (Índice de Gini) caiu levemente nas últimas décadas. O acesso à saúde e educação melhorou drasticamente comparado a 1990. Mas a nossa percepção de felicidade despencou porque a régua subiu.

Queremos o conforto do século XXI com a facilidade de aquisição de bens do século XX. Queremos ser cosmopolitas globais pagando preços de vilarejo local. Essa conta não fecha.

Conclusão: O Que Fazer?

O diagnóstico é claro: não é uma conspiração, é uma mudança estrutural de preferências e concorrência.

Você não é uma vítima do sistema, mas talvez seja uma vítima dos seus próprios desejos. Para “vencer” a geração dos seus pais, você precisa de uma estratégia diferente da deles:

  1. Rever o Conceito de Necessidade: O que é essencial e o que é conforto moderno? Cortar o iFood e cozinhar não é apenas economia, é uma retomada de controle.
  2. Aceitar o Trade-off Imobiliário: Ou você paga caro pela localização premium, ou aceita se deslocar para construir patrimônio em áreas em expansão. Não dá para ter os dois.
  3. Aumentar a Renda via Tecnologia: Use a internet para aprender, não apenas para gastar. Se o mundo ficou mais competitivo, torne-se mais competente.
  4. Blindagem Emocional: Pare de se comparar com o recorte editado da vida alheia. A riqueza silenciosa (dinheiro investido, paz de espírito) vale mais que a riqueza barulhenta (carro do ano, stories na balada).

A economia se sobrepõe à realidade social. Se você continuar vivendo com a mentalidade de consumo da Geração Z, mas esperando os resultados patrimoniais dos Boomers, a frustração será sua única herança.

Pense nisso.


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